Amargor ou: dilema dos vinte (e pouquinhos) anos
Refiro-me ao sentimento ou ocasião em que nos deparamos em profunda dúvida, indecisão ou ignorância sobre nossa própria existência e da vida. Terei me tornado uma velha arrependida de seus erros e desperdícios, no auge de meus 20 anos? Terá o mundo se tornado tão frívolo e desinteressante em tão pouco tempo, fazendo com que poucas emoções valham a pena serem sentidas, compartilhadas, expressadas? Será uma confusão causada pelo fato de não ser mais criança, mas tampouco reconhecer-se enquanto mulher, em gênero e fase da vida? Haverá de ser toda essa insatisfação uma conseqüência da constante percepção de que tudo aquilo em que se dedicou, com esforço e paixão, desmoronou ou está permanentemente sob a ameaça de ruir? Existirá uma crise dos vinte anos em que é normal questionar-se todas estas coisas e notar-se indefeso perante a fortuna? Será um rito pelo qual todos passam e, após um tempo superado, consideram-no um drama imbecil de um jovem romântico e alienado? Não seria então essa superação da fase, em verdade, seu aprofundamento; a consolidação da amargura no espírito do indivíduo; a desimportância do presente agravada pela negação da relevância do passado? E se for, caminhamos portanto não apenas para o envelhecimento e morte do corpo e mente, mas também para o suicídio lento e assistido do coração e da alma?
Espero o amanhã e temo pelo fim, não por desconhecer as respostas, mas pelo simples medo de que de fato existam.