Relato #2

Dois fatores me motivam a escrever hoje: o primeiro é que, por absoluto tédio e falta de companhia (já que todos estavam em algum lugar vendo TV), decidi ver o UFC 134. O segundo é um artigo que li logo após as lutas sobre o por quê nós repassamos informações, demonstrando que quando estamos excitados/animados/agitados tendemos compartilhar mais vezes.

Por essas duas razões, decidi refletir sobre como há ainda algo de muito selvagem dentro de nós. A cada golpe encaixado, a cada movimento de força e técnica, a platéia se enlouquecia. Os lutadores, por sua vez, demonstravam a cada ataque uma expressão inigualável no rosto, um misto de raiva e sobrevivência: taí o motivo de gostarmos de assistir. É por incitar algo instintivo, animalesco, primitivo que, de uma forma ou de outra, continua sendo o que nos move.

Particularmente, detesto ver uma briga ou sequer uma discussão: viro de costas, tampo os ouvidos, fujo, recuso-me acreditar que isto existe e que devo presenciar. No entanto, a presença de regras e de um árbitro que é de fato (e surpreendentemente!) respeitado muda tudo na minha cabeça: é como se, além da luta deixar de ser uma briga e virar um esporte, se tornasse não competitiva. Ou uma disputa impessoal, mas na qual ainda se respeita e se importa com o outro, adversário. Não exatamente isso, mas é difícil explicar uma percepção.

De qualquer forma, este ambiente controlado – quase um laboratório – desperta em mim tal excitação primitiva, de querer ver e participar do embate, de querer gritar ou brincar de lutinha com alguém, de desejar mais um chute ou soco, de olhar pro corte no rosto de alguém e dizer “agora sim!”.

Acho engraçado e incrível o ponto em que chegamos na repressão de nossos impulsos mais básicos: se por um lado evitamos dar um soco em alguém por mais merecedor que seja ou tentamos conter a risada quando alguém passa vexame, por outro criamos mecanismos institucionais, regrados, para que pessoas possam degladiar-se em segurança e todos sintam-se parte disso e compartilhem as mesmas emoções.

É interessante notar que a norma, nossa nova-velha moral, inverte valores e recria práticas e comportamentos tantas vezes banidos da sociedade. Às vezes o resultado é bem atraente.


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