Relato #6

Amargor ou: dilema dos vinte (e pouquinhos) anos

Refiro-me ao sentimento ou ocasião em que nos deparamos em profunda dúvida, indecisão ou ignorância sobre nossa própria existência e da vida. Terei me tornado uma velha arrependida de seus erros e desperdícios, no auge de meus 20 anos? Terá o mundo se tornado tão frívolo e desinteressante em tão pouco tempo, fazendo com que poucas emoções valham a pena serem sentidas, compartilhadas, expressadas? Será uma confusão causada pelo fato de não ser mais criança, mas tampouco reconhecer-se enquanto mulher, em gênero e fase da vida? Haverá de ser toda essa insatisfação uma conseqüência  da constante percepção de que tudo aquilo em que se dedicou, com esforço e paixão, desmoronou ou está permanentemente sob a ameaça de ruir? Existirá uma crise dos vinte anos em que é normal questionar-se todas estas coisas e notar-se indefeso perante a fortuna? Será um rito pelo qual todos passam e, após um tempo superado, consideram-no um drama imbecil de um jovem romântico e alienado? Não seria então essa superação da fase, em verdade, seu aprofundamento; a consolidação da amargura no espírito do indivíduo; a desimportância do presente agravada pela negação da relevância do passado? E se for, caminhamos portanto não apenas para o envelhecimento e morte do corpo e mente, mas também para o suicídio lento e assistido do coração e da alma?

Espero o amanhã e temo pelo fim, não por desconhecer as respostas, mas pelo simples medo de que de fato existam.


Relato #5

Sabe aquelas vezes que você fica pensando o que falaria naquele momento a alguém se tivesse a oportunidade e a coragem? No caminho pra casa pensei nisso, e não sei se aquilo que gostaria de falar é uma expressão de ódio, de desprezo, de tristeza. Só que é horrível e detesto ter isto dentro de mim, esta vontade de explodir, fazendo com que os estilhaços acertem – e bastante – algumas pessoas, de feri-las profundamente. E falo no plural pra disfarçar a singularidade.

“E você vai morrer sozinho, sem ninguém pra te enterrar.”


Relato #4

Hoje dei um passo que, acredito, poderá mudar – ou melhor, definir – o rumo (profissional) da minha vida. A partir de agora devo ser capaz de distinguir de fato para quê tenho aptidão.

Acho a Academia fascinante, a idéia de contribuir para o desenvolvimento científico, teórico, filosófico, mas sempre me pego questionando… o que eu tenho para acrescentar? e penso e não descubro, e não me vejo pesquisando a fundo um assunto sem ficar entediada e largar pela metade, inacabado.

Amo a política, mas questiono se tenho as habilidades pragmáticas, interpessoais, de negociação, de feeling e timing, de um misto de egoísmo e abnegação, necessárias para a tarefa. Por enquanto, vejo-me muito mais encaixada na segunda alternativa, no exercício formal da política, em seu assessoramento e consultoria.

Mas, ainda assim, torna-se inevitável a pergunta, aquela de uma crise de meia meia-idade, de “é isso que eu quero? é nisso que eu sou bom? é isso que vai me ocupar e fazer feliz pelo resto da vida? é por isso que eu vou me preocupar e achar que vale a pena?”. O pior é que essas respostas não consigo ter, não por hora.

Acredito, então, que a decisão hoje tomada irá facilitar as coisas, confirmar um pressentimento, tranqüilizar a ansiedade imposta pelo fim da faculdade. Meu problema será se, por ventura, descobrir que a resposta às minhas indagações é “não. não é isso que eu devo fazer”, pois, ao menos agora, não enxergo qualquer opção além dessas duas.

Tudo que sei é que é preciso construir.


Relato #3

E quando você pede tantas desculpas que nem sabe mais pelo quê. Só suplica, esperando que isso conserte algo que você não sabe em quê está errado, mas sente que está. E quando você repete este procedimento tantas vezes que, por mais que seu pedido seja sincero e atencioso, para os outros transparece ser um erro sistemático, uma mania, um desprezo. Não é. É apenas um ato desesperado para que tudo volte a ser bom, correto, compreensivo, seguro, agradável, reconfortante. É meu jeito desengonçado de dizer que amo o que somos e detesto uma situação imposta. O curioso é que acontece logo após os melhores momentos, como um choque que nos traz à realidade.


Relato #2

Dois fatores me motivam a escrever hoje: o primeiro é que, por absoluto tédio e falta de companhia (já que todos estavam em algum lugar vendo TV), decidi ver o UFC 134. O segundo é um artigo que li logo após as lutas sobre o por quê nós repassamos informações, demonstrando que quando estamos excitados/animados/agitados tendemos compartilhar mais vezes.

Por essas duas razões, decidi refletir sobre como há ainda algo de muito selvagem dentro de nós. A cada golpe encaixado, a cada movimento de força e técnica, a platéia se enlouquecia. Os lutadores, por sua vez, demonstravam a cada ataque uma expressão inigualável no rosto, um misto de raiva e sobrevivência: taí o motivo de gostarmos de assistir. É por incitar algo instintivo, animalesco, primitivo que, de uma forma ou de outra, continua sendo o que nos move.

Particularmente, detesto ver uma briga ou sequer uma discussão: viro de costas, tampo os ouvidos, fujo, recuso-me acreditar que isto existe e que devo presenciar. No entanto, a presença de regras e de um árbitro que é de fato (e surpreendentemente!) respeitado muda tudo na minha cabeça: é como se, além da luta deixar de ser uma briga e virar um esporte, se tornasse não competitiva. Ou uma disputa impessoal, mas na qual ainda se respeita e se importa com o outro, adversário. Não exatamente isso, mas é difícil explicar uma percepção.

De qualquer forma, este ambiente controlado – quase um laboratório – desperta em mim tal excitação primitiva, de querer ver e participar do embate, de querer gritar ou brincar de lutinha com alguém, de desejar mais um chute ou soco, de olhar pro corte no rosto de alguém e dizer “agora sim!”.

Acho engraçado e incrível o ponto em que chegamos na repressão de nossos impulsos mais básicos: se por um lado evitamos dar um soco em alguém por mais merecedor que seja ou tentamos conter a risada quando alguém passa vexame, por outro criamos mecanismos institucionais, regrados, para que pessoas possam degladiar-se em segurança e todos sintam-se parte disso e compartilhem as mesmas emoções.

É interessante notar que a norma, nossa nova-velha moral, inverte valores e recria práticas e comportamentos tantas vezes banidos da sociedade. Às vezes o resultado é bem atraente.


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